Blog EntryA agressividade na fotografiaMay 29, '06 10:06 AM
for everyone
O ato de fotografar pode ser agressivo de diversas maneiras, embora a maioria dos fotógrafos não pense dessa forma. Há fotógrafos que falam em "construir" fotografias em vez de tirá-las. Contudo, a mudança no termo utilizado não modifica a essência do ato em si.

Fotografar é agressivo na medida em que reflete um desejo do fotógrafo de se apropriar de uma parte do mundo, seja um por-do-sol, uma flor ou até uma pessoa. Aquilo que é fotografado passa a ser propriedade. A câmera delimita, corta e toma para si uma parte do real. E, independentemente do enquadramento, o corte é sempre agressivo, na medida em que separa um objeto de seu contexto,fracionando a realidade.

É muito difícil acreditar que quem fotografa pessoas sofrendo (como mendigos, doentes etc) possa realmente ter uma consciência do resultado do que faz. Esse tipo de foto já não tem mais um sentido de denúncia, uma vez que já somos bombardeados constantemente com essas imagens. Já estamos dessensibilizados e só nos tornamos ainda mais indiferentes à realidade através de imagens de sofrimento. Essas fotos podem funcionar, então, mais como um troféu para o fotógrafo do que um instrumento de mudança social.

Em um dos encontros que participei, havia membros de um proeminente grupo de fotografia. Uma senhora que vendia bilhetes de loteria passou por nós e, ao ver as câmeras, pediu que não fosse fotografada. Ignorando seus apelos, esses fotógrafos dispararam impiedosamente suas câmeras contra ela. Os fotógrafos fingiam algum interesse apenas para mantê-la próxima enquanto disparavam saraivadas de cliques. Ela, ali, já deixara de ser uma pessoa e se tornara apenas um objeto inanimado e "interessante" para as lentes. Eles não tinham nenhuma preocupação social ou pessoal com o ser humano que estava à sua frente: só buscavam uma boa fotografia, para si mesmos.

As câmeras podem ser instrumentos dotados de poder por quem as usa. Não é a toa que muitas pessoas (especialmente homens) discutem tanto sobre qual é o melhor equipamento e tentam sempre serem os melhores. Fica difícil sair da lógica freudiana nesse aspecto, com demosntrações tão claras do desejo de ter o maior "poder". Máquinas fotógráficas são muito parecidas com armas: vide o termo "point-and-shoot" (aponte e dispare). Já fiquei surpreendido como uma discussão sobre a atividade fotográfica, num fórum de fotografia, transformou-se em uma discussão sobre armas. E as fotos desse tópico falam por si mesmas.

Alguns autores associam a fotografia à morte, mas não essa maneira tão crua e banal. A fotografia, ao capturar um momento quase infinitamente minúsculo de tempo (seja qual for o tempo de exposição), liga-se a uma efemeridade que, em última instância, representa a própria morte. Fotografias geralmente duram mais do que os assuntos (vivos) fotografados.

É difícil, e talvez contraprodutivo, tentar dissociar a fotografia da agressividade. Há, porém, espaço para a generosidade e a criação. O primeiro passo é a consciência desses aspectos intrinsecos ao ato de fotografar.

Referências:
Sontag, S. (1981). Sobre Fotografia. Rio de Janeiro: Arbor.
Barthes, R. (1980). A Câmara Clara. Lisboa: Edições 70.
Fórum Fotografia Brasil - http://www.fotografiabrasil.com
Foto de
Joseph Zlomek


anebatista wrote on Jun 1, '06
Demorei a contestar o texto,porque estava processando as informações ainda.Mas acho uma discussão valida,no aspecto da perda de sentido social da foto...apesar que acho o texto um tanto arrogante na sua colocação...me da a impressão de uma verdade absoluta...Qualquer pessoa ao realizar algo..naturalmente quer ser reconhecido e fazer daquilo um trofeu..não so um artista..isso faz parte da condição humana.Em relação a agressividade e associação a morte..acho irrelevante...o objetivo na arte é a discussão de algo.É vc deixar uma certa vontade de conhecer mais sobre aquilo,de argumentar...de não gostar ou gostar,mas sempre com coerencia no ponto de vista...isso faz crescer...No aspecto social...mesmo voce postando uma foto que cita no texto de um mendigo por exemplo...ainda vão ter pessoas que olham aquilo como aspecto social.Agora deixando de lado o fotografo,o pintor..seja la o que for..será que quando nos passamos perto de uma imagem "considerada agressiva,ou "feia",paramos pra pensar..olhamos...tocamos...ou conversamos....não acho...Porque so um simples clique cria toda essa discussão...
Abraços
rfpereira wrote on Jun 1, '06
Demorei a contestar o texto,porque estava processando as informações ainda.Mas acho uma discussão valida,no aspecto da perda de sentido social da foto...apesar que acho o texto um tanto arrogante na sua colocação...me da a impressão de uma verdade absoluta...Qualquer pessoa ao realizar algo..naturalmente quer ser reconhecido e fazer daquilo um trofeu..não so um artista..isso faz parte da condição humana.Em relação a agressividade e associação a morte..acho irrelevante...o objetivo na arte é a discussão de algo.É vc deixar uma certa vontade de conhecer mais sobre aquilo,de argumentar...de não gostar ou gostar,mas sempre com coerencia no ponto de vista...isso faz crescer...No aspecto social...mesmo voce postando uma foto que cita no texto de um mendigo por exemplo...ainda vão ter pessoas que olham aquilo como aspecto social.Agora deixando de lado o fotografo,o pintor..seja la o que for..será que quando nos passamos perto de uma imagem "considerada agressiva,ou "feia",paramos pra pensar..olhamos...tocamos...ou conversamos....não acho...Porque so um simples clique cria toda essa discussão...
Abraços
Ane,

Obrigado pelo comentário e pela discussão inteligente do meu texto. Em relação à questão do "troféu": nenhuma verdade é absoluta. A minha colocação se baseou numa situação que presenciei e no que vejo na atitude de muitas pessoas ao fotografar (não todas). Há trabalhos muito importantes de fotógrafos que mostram a pobreza, as dificuldades pelas quais menos favorecidos passam. Mas isso requer um respeito e um interesse genuíno pela condição do outro, o que é raro encontrar. Achei louvável a sua colocação sobre a questão do reconhecimento: geralmente esse tipo de coisa é tratada com hipocrisia, e não como algo relativo à condição humana, o que é fato.

Concordo com você que uma imagem agressiva ou feia promove uma série de discussões e pode ser muito relevante — mais, até, do que as imagens cosméticas com as quais somos bombardeados. E com certeza a arte deve ser ponto de partida para algo mais. Mas quando falo da agressividade, falo daquela que está no fotógrafo que, por exemplo, retrata uma pessoa sem o consentimento dela: não há motivo maior que sirva de desculpa para essa falta básica de respeito.

Com exceção do fato de você ter achado minha colocação arrogante, não acho que estejamos discordando. Talvez estejamos falando coisas parecidas de maneiras diferentes.
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