Fotografia, Poesia, Questionamentos | |
Caros amigos,Nos últimos meses, o Câmara Obscura continou recebendo novos conteúdos em relação à fotografia. Além dos textos, uma grande novidade é a Galeria Câmara Obscura, que passa a ser um espaço virtual de exposições fotográficas, em que cada autor apresenta um projeto delimitado. A idéia é incentivar a produção autoral de fotógrafos amadores e profissionais, permitindo ao visitante um contato mais próximo e completo com cada trabalho. Para acessar, clique: Galeria Câmara Obscura.Entre os diveros artigos publicados, seguem alguns destaques:Aguardo a sua visita.
Como alguns amigos do Multiply já sabem, estou passando a postar novos textos sobre fotografia no meu novo site, cujo endereço é http://camaraobscura.fot.brNo entanto, deixarei o material produzido até o momento ainda para acesso de quem tiver interesse, e continuo frequentando o Multiply para acessar as páginas de conhecidos. Obrigado, Rodrigo F. Pereira http://camaraobscura.fot.br
Quando alguém diz que está iniciando na fotografia e gostaria de saber como começar, sempre pergunta se deve comprar uma câmera analógica ou tenta juntar mais dinheiro para adquirir uma máquina digital. A resposta, geralmente, é que a digital proporcionará um aprendizado mais rápido. Por outro lado, a maior parte dos cursos de fotografia ainda empresta ou recomenda câmeras mecânicas como a Pentax K1000 para seus alunos.
Com uma câmera digital que tenha possibilidade de ajustar manualmente foco, abertura e tempo de exposição, ainda que não seja uma reflex, um iniciante poderá executar rapidamente os exercícios mais básicos da técnica fotográfica. Esses exercícios envolvem principalmente a determinação de uma exposição "correta" e alguns efeitos provocados pela variação desses fatores (como congelar ou borrar o movimento, aumentar ou diminuir o desfoque das áreas fora de foco etc.). É indiscutível que, ao fornecer o resultado imediato, o sistema digital permite a assimilação desses conceitos de forma muito rápida. Uma outra vantagem é que as fotos digitais contêm dados relativos aos ajustes realizados, possibilitando a conferência e associação com o resultado visto na foto. Se, para o mesmo fim, fosse utilizada uma câmera analógica, seria preciso anotar os dados a cada foto, terminar o filme, mandar revelar e só então ter o resultado. Quantas pessoas que você conhece se disporiam a fazer isso hoje?
Outro argumento em favor das digitais é que o filme envolve gastos, ao contrário da digital, que não teria custo por foto. Esse argumento, ao meu ver, tem um certo risco, pois a pessoa pode simplesmente desistir da fotografia, e terá um equipamento caro em mãos para passar pra frente (já desvalorizado). Uma analogia: quando uma criança quer aprender a andar de bicicleta, não compramos para ela um modelo de liga leve com 35 marchas e tudo o que tem direito. Compramos uma simples e, se ela aprender e realmente gostar, aí sim ela pode passar para algo melhor. Em fotografia isso seria: "compre uma Zenit por R$ 100, gaste mais uns R$ 100 em filmes e revelação e veja como se sente". Se a pessoa gostar, ótimo, se não gostar, uma Zenit parada no armário não dói tanto assim.
Um outro ponto, este dos mais aficcionados por tecnologia, diz que não vale a pena aprender com um equipamento ultrapassado e que a tendência é que o filme deixe de existir em breve. As vendas de câmeras digitais aumentam, laboratórios fecham etc. O problema é que muitas vezes a forma de ver o mundo da classe média é de olhar para o próprio umbigo e generalizar, sem perceber a coisa como um todo. Um dia desses estava num ônibus e entrou uma senhora, com seus trinta ou quarenta anos. De uma sacola, ela tirou um carnê das Casas Bahia e uma caixa com uma câmera fotográfica. Analógica, compacta, que deve ter custado menos de R$ 90. Toda feliz, mostrava o equipamento para sua amiga. Essa senhora vai usar muitos filmes, e sabe-se lá quando vai ter uma câmera digital. Segundo o IBGE, mais de 80% dos domícilios brasileiros não têm computador, e 55% da população sequer usou um em toda a vida. Embora seja uma estatística triste, mostra que esse é o mercado potencial da fotografia analógica no Brasil. E pode-se imaginar que, por conta disso, as caixinhas amarelas e verdes continuarão penduradas ao lado das registradoras nos supermecados por um bom tempo. A tão falada revolução digital não chegou ainda para 4/5 dos brasileiros.
Estava pensando nessa questão toda e percebi mais um detalhe. Quando se entra em galerias online como o PBase e o Fickr, a qualidade das fotos — desconsiderando a questão da qualidade da imagem e pensando em conteúdo, composição etc — daqueles que fotografam com filme (ainda que também usem a digital) parece muito maior, em termos gerais. Sempre que queremos achamos exemplos do contrário, mas, generalizando, essa foi a minha impressão. Perguntei ao Ivan o que ele achava, e veio a resposta:
"Provavelmente porque quem fotografa com filme hoje tem um nível médio superior ao de quem fotografa com digital, e mais ainda, é alguém capaz de seguir um caminho menos fácil, isso tudo revelando uma personalidade mais capaz de lidar com a fotografia para além da operatividade e dos modelões. Não é que o filme faça pensar melhor, isso ele não faz, aliás, é o contrário, a digital é que faz pensar melhor devido ao feedback. É que os que buscam o filme já pensam melhor –risos. Já são pessoas mais articuladas, etc. Por exemplo, imagine as pessoas que fazem Cianotipia. Elas já partem de um nível de exigência de resultado muito acima do cara do pôr-do-sol, então é claro que o nível médio da Cianotipia é ótimo."
Considerei a resposta do Ivan bastante coerente e assino embaixo. Contudo, a questão do aprendizado não foi consensual entre nós. O que acho é que uma câmera digital é realmente fantástica para o aprendizado técnico de como fazer uma fotografia. Mas o filme traz um refinamento na relação com a fotografia que acrescenta muito ao fotógrafo que "já sabe fotografar". Alguns elementos contribuem para isso, como a espera, tensa, pela revelação. Sabe-se que o momento já foi e, até termos o filme processado em mãos, não sabemos se de fato conseguimos o que pretendíamos. Lidar com a foto como um objeto físico (em vez de vê-la no monitor) é outra forma de aprendizado, pois entendemos que não dá pra controlar tudo. E o mais importante para mim é a imaginação. Quando usamos filme, só podemos imaginar como a foto vai sair. A fotografia não é uma cópia da realidade, e todas as variáveis que interferem no resultado precisam ser imaginadas na hora do clique. Se temos um rolo de filme preto e branco, precisamos modificar aquilo que vemos através do prisma. Da mesma forma que com um cromo, realçando as cores do mundo. Todos os ajustes que fazemos na câmera precisam ser antevistos. Essa é uma das maravilhas da fotografia, e o refinamento que essa experiência traz dificilmente é atingida através de outros meios.
E, embora, sim, a digital seja fantástica para o aprendizado, invariavelmente os amantes de fotografia buscam também o filme, seja pela qualidade visual do resultado, seja por essa experiência quase mística de imaginação e espera.
Foto: the other Martin Taylor
Peter Robinson, do blog The Online Photographer, criou uma imagem que simboliza o uso de filme para uso em websites. A idéia é mostrar que ainda há usuários de filme e que o digital não é a única alternativa para os que estão ingressando na fotografia. Como eu concordo com essa idéia, coloquei a faixa na minha página de entrada. Robinson disponibilizou a imagem em vários tamanhos em seu site.
Na última semana, passei por duas experiências relativamente novas, ambas relativas à leitura e apreciação de fotografias.
A primeira foi a reunião de estudo fotográfico realizada pelo Sampa Foto Clube. Nos reunimos com os sócios no Centro Cultural Vergueiro e tivemos a presença do Luiz Gianini e do Bento Bueno, que colaboraram bastante com a discussão. Foi interessante estar cara a cara com os autores, entender suas motivações, impressões e intenções embutidas em cada uma de suas fotos. A reunião permitiu a todos manipular as cópias impressas, questionar, debater. O encontro ainda pode ser melhorado, mas foi um passo importante para a consolidação do clube na arte fotográfica, após a exposição que organizamos.
A outra foi a minha participação como juiz no Concurso de Fotografia do Digiforum, que contou com vários profissionais importantes da área. Teve uma organização primorosa do Celso e do Oduvaldo, administradores do espaço, e uma premiação interessante. Os planos são de que os próximos concursos sejam ainda maiores. Foi difícil julgar as fotos, pois, apesar do tema único, os trabalhos apresentavam uma grande variação relativa ao domínio da técnica e da fotografia como forma de expressão. Contudo, os juízes de forma geral fizeram os comentários que foram necessários, e acredita-se que isso seja importante para o crescimento da comunidade. Fico grato à organização pelo convite.
O endereço do site do Sampa Foto Clube é www.sampafotoclube.com.br e o do Digifroum é www.digiforum.com.br
Foto: André Gusmão
Artigo originalmente publicado no site do Sampa Foto Clube. ================================= Ao
longo da evolução da fotografia, houve uma transferência da
predominância das grande-angulares para as teleobjetivas. Na época das
rangefinders, as lentes com grande distância focal eram problemáticas,
por questões de construção e paralaxe. A popularização das câmeras
reflex de 35mm trouxe um certo equilíbrio a esse panorama, já que
permitia o uso desde de lentes olho-de-peixe como de teles longas.
Hoje, com a fotografia digital, a balança está pendendo para as teles.
Atualmente,
como a maioria das câmeras digitais tem um fator de corte em relação ao
formato do filme, uma vez que os fabricantes apostam no modelo híbrido
de câmera reflex, que usa os mesmos encaixes das câmeras analógicas, a
grande-angular saiu perdendo. Uma lente de 50mm agora tem o ângulo de
visão de uma 75mm numa Nikon ou Pentax e 80mm numa Canon. E a visada
que antes se conseguia com uma 24mm necessita de uma lente de 16 ou
15mm, com claros prejuízos aos fotógrafos: qualidade ótica inferior e
custo astronômico.
Não precisamos ficar no campo das reflex para
constatar o desequilíbrio: as câmeras compactas e superzooms, como o
próprio nome diz, querem atrair o consumidor com distâncias focais
máximas equivalentes de até 400mm, para "aproximar" o assunto. Só que
há pouquíssimos modelos de câmera nesse segmento com distância focal
inicial menor que 35 ou 36mm. A grande-angular foi sacrificada e o
ângulo de visão 28mm, comum em muitas lentes para as analógicas, é raro
entre as máquinas com lentes fixas.
O resultado desse novo
paradigma do mercado é uma linguagem específica da tele, que envolve o
corte agressivo, achatamento dos planos, destacamento do assunto em
relação ao fundo pelo enquadre e pela profundidade de campo curta. Como
a composição acaba ficando fácil, sem muitos elementos, já que o fundo
é seccionado e borrado, as fotos tendem a apresentar um visual límpido
e asséptico, que pode ser tomado como qualidade, ainda mais quando
associado à pasteurização típica — e também já quase paradigmática — do
digital.
Um outro resultado, mais contundente no que se refere
ao ato fotográfico, é o distânciamento do fotógrafo em relação ao
assunto. Pode-se fazer um retrato a metros de distância. Portanto, ao
contrário do que o senso comum diz, as teles não aproximam: elas
afastam o assunto. E o contato entre o fotógrafo e o fotografado é
reduzido, ou simplesmente não existe.
Para ilustrar um pouco do caminho oposto, ou seja, da aproximação — real e não através da lente — pedi ao Ivan de Almeida
retratos feitos com grande-angulares, e ele gentilmente me
disponibilizou duas imagens. Ainda que tenham o crop das reflex
digitais, essas fotos mostram o contato e a cumplicidade implícitos
entre o fotógrafo e o fotografado.
 Percebe-se que,
nesses retratos, as pessoas estão envolvidas pelo seu ambiente. Embora
seja mais difícil o arranjo dos elementos do fundo sem a artimanha do
desfoque e do corte, toda essa contextualização torna a cena muito mais
interessante, uma vez que é mais complexa e dá mais chance à narrativa.
Além da qualidade estética do arranjo formal, as fotos ainda registram
a presença do fotógrafo, também imerso nesse mesmo mundo. Claramente uma
linguagem muito distinta das teles.
Mais uma vez, não escrevo a
fim de desqualificar um tipo de linguagem ou atuação. Como sempre, meu
texto tem como intuito fomentar a reflexão e a discussão sobre alguns
elementos da fotografia que podemos não perceber de pronto, mas que
podem ser valiosos ao tomarmos consciência de sua existência. Há muitos
que utilizam as características das teleobjetivas que citei aqui para
produzir trabalhos muito interessantes. Como exemplo, destaco a série "Incomunicabilidade",
de Gregório Graziosi, cujo recorte das formas urbanas e o isolamento
dos sujeitos jogam a favor da idéia que o autor busca com suas fotos.
Para aqueles que tiverem interesse, resolvi criar um grupo no Flickr
para envio de fotos feitas com 28mm ou menos e discussão sobre o tema,
já que não existia nenhum em língua portuguesa. O endereço é http://www.flickr.com/groups/44219001@N00/.
Foto topo da página: Dennis Taufenbach
Antes do meu casamento, minha mãe pediu que eu comprasse alguns filmes para ela, que queria levar sua compacta na festa para algumas fotos. Comprei uma caixa de Pro Value 200. No fim das contas, ela não tirou foto nenhuma e eu acabei pegando uns rolos pra mim. Fazia tempo que não fotografava com negativo colorido: tenho usado mais negativo PB e cromo.
Outra coisa que estava meio encostada era minha lente 24mm, já que ultimamente estava explorando a possibilidade de fotos com pouca luz e a profundidade de campo extremamente restrita da 50mm 1.2. Aproveitei um fim de tarde em Laranjal para algumas fotos; queria re-experimentar as possibilidades da grande angular.
Mas há uma questão central na fotografia: quando a luz não é boa, não há o que se fazer. O dia estava nublado, mas bem claro, o que deixava as paisagens achatadas e o céu branco. Resultado: detestei as fotos de cara. Vou colocar três delas.
 Nessa, a intenção era mesmo aproveitar o branco leitoso da parede e a linha da cerca. Não saiu diferente do que eu imaginava, mas ficou uma foto bem desinteressante.
Nesta segunda, queria combinar o portão em primeiro plano e o resto da paisagem. Mas a árvore, no fundo, em contraste com o céu branco não funcionou pra mim. O horizonte azulado e a falta de vibração das cores por conta de luz tirou a graça da cena.
Nesta última, imaginei que a cerca caída, a pilha de tijolos e o muro poderiam compor uma cena interessante. Só que eu não soube arranjar os elementos de forma a criar uma composição harmônica ou no mínimo interessante: ficou tudo meio jogado — e nesse caso nem posso culpar a luz.
Mandei revelar o filme num minilab qualquer. Para minha surpresa, a revelação simples deu uma vantagem na hora do escaneamento: o baixo contraste e o papel brilhante preservaram os detalhes, dando um pouco mais de margem para alguns acertos de tons e cores no Photoshop.
Mesmo não gostando das fotos, essa experiência toda me fez ficar mais motivado para continuar tentando buscar composições interessantes em grande angular e elaborar melhor esse projeto. Vou usar mais um ou dois rolos de Pro Value e sair com a câmera apenas com a 24mm e ver no que dá. A cidade certamente receberá essa idéia de outra forma.
 | A cidade | Feb 17, '07 8:52 AM for everyone |
A cidade permanece, estática Cercada de si mesma, hermética Na mistura que é sua, temática Um mais um mais mil, eclética
Vai, volta, revolta, errática O outro, revolto, sem ética Machuca, insulta, somática A metrópole grita, catártica
O mau gosto e o desgosto, estética O velho rançoso, novo deposto, caquética Ainda assim persiste, renasce, profética A cidade permanece, enfática
Prometi a mim mesmo que não queria voltar a falar de equipamento, mas quando meu amigo Ivan me apontou um artigo que eu já lera há alguns meses, não resisti.
Logo me veio à cabeça a pergunta: "quero me tornar um profissional, que equipamento eu preciso?". E a invariável resposta: "uma DSLR".
Deixe-me então apresentá-lo ao céu fotográfico profissional: a agência norte-americana Magnum Photos, que reúne, há décadas, grandes expoentes da fotografia. Foi fundada em 1947 por ninguém menos que Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e David Seymor. Os fotógrafos da Magnum cobrem desde guerras até ensaios em estúdio.
Agora, imagine o equipamento que o cara precisa ter pra fazer parte de uma agência dessas. Provavelmente uma ou duas reflex full-frame e toneladas de lentes. Ou não.
Alex Majoli, 36 anos, membro da Magnum desde 2001, esteve em Kosovo, no Afeganistão e no Iraque. Seu equipamento? As câmeras Olympus C-5050, C-5060 e C-8080, todas com lentes fixas, com os imprestáveis pequenos sensores e isos altos das compactas.
O fotógrafo aprimorou sua técnica a fim de utilizar o melhor dessas câmeras: a grande profundidade de campo. Ele compõe primeiros planos próximos e fundos distantes em combinações extremamente bem equilibradas, e que mostram uma maneira de ver o mundo muito diferente daquela fornecida pelas fotos obtidas com câmeras reflex a que estamos acostumados no fotojornalismo.
Outro elemento que Alex explora em suas coberturas é o fato das câmeras serem extremamente silenciosas e o visor lcd escamoteável permitir fazer fotos sem colocar a câmera na frente do rosto. "As pessoas não percebem que estou tirando fotos", diz ele. "É fantástico. Fantástico."
Além disso, Alex já fez ensaios de estúdio e fotografou para a National Geographic com point-and-shoots. "O cliente fica satisfeito e não se preocupa com a câmera que eu usei."
Duas de suas fotos: http://www.robgalbraith.com/data/1/rec_imgs/741_majoli_02.jpg http://www.robgalbraith.com/data/1/rec_imgs/742_majoli_05.jpg
Recomendo a todos que entrem no site da Magnum e confiram o seu portifólio (é necessário registrar-se).
Alex nos mostra que, numa área em que amadores procuram ao máximo imitar uma estética publicitária de fundos desfocados e isos altos sem ruído, há aqueles que vão muito além disso e permitem que vejamos o mundo de diferentes formas. Obrigado, Alex.
Fontes: http://www.magnumphotos.com http://www.robgalbraith.com/bins/multi_page.asp?cid=7-6468-7844
Como psicólogo, fico um tanto impressionado com a questão da identidade pessoal. Sem entrar muito em nenhuma teoria mais complexa, vendo identidade apenas como aquilo que vemos e pensamos de nós mesmos. O que me impressiona é a freqüência com que recorremos ao consumo, e aos materiais consumidos, para compor nossa identidade.
Já sabemos como essas coisas funcionam. Uma mulher pode pagar milhares de reais para poder ostentar uma bolsa Luis Vuitton, um homem pode fazer o mesmo para vestir um terno Armani. Mesmo um adolescente se presta facilmente de outdoor ambulante, ao vestir com orgulho uma camiseta com uma determinada marca, ou com o nome de uma banda.
Mas vamos nos restringir à fotografia, que tem sido o objeto de discussão nesse espaço. Não me chama atenção o fato das pessoas terem suas câmeras, gostarem delas e tudo mais. O que me impressiona é p fato das pessoas defenderem as marcas que usam como se fosse parte de si mesmos. É comum que se definam como usuários de determinada marca, como se aquilo fosse, de fato, um definidor de sua identidade. Muito disso é feito em tom de brincadeira. No entanto, é uma brincadeira tão freqüente que fica evidente que as pessoas realmente se preocupam demais com isso.
Nos fóruns, pode-se até xingar a mãe do outro, mas isso não será visto como uma ofensa tão mortal quanto falar mal da cãmera alheia — alguns têm até regras contra isso ou salas específicas para esse tipo de "brincadeira". As assinaturas geralmente contêm o equipamento que se utiliza. Ok, considera-se que seja útil saber como a pessoa faz suas fotos (outro ponto questionável, mas que não abordarei agora), mas o fato é que a assinatura nos identifica perante a comunidade e somos identificados pelo que temos, não pelo que pensamos ou fazemos.
Já vi pessoas relembrando sua trajetória fotográfica. Dez por cento falam sobre a forma como sua visão e sua concepção da fotografia foi mudando, olhando de perto sua produção em suas características, congruências e dissonâncias. Os outros noventa por cento dizem: comecei com uma câmera X, passei para a máquina Y, tudo mudou quando adquiri a lente Z, agora busco um equipamento n. É claro que a fotografia de uma pessoa pode mudar muito em função do equipamento, mas a questão é se o equipamento se submete às necessidades da fotografia ou a fotografia se submete às necessidades de se ter um equipamento.
Vejo que se troca de câmera muito rapidamente (para felicidade dos fabricantes, que além de terem defensores ferrenhos de suas marcas, têm consumidores para qualquer bugiganga nova que lançam no mercado), mas são poucos os casos em que se extrai o máximo do equipamento e aí percebe-se que com um diferente se pode fazer mais. Curiosamente, percebo que a troca faz mais sentido entre os que têm equipamentos simples, muito limitados, e querem mais possibilidades, do que entre os que têm equipamentos médios e de ponta, que na prática fazem a mesma coisa.
Há algumas pessoas, no entanto, fazendo um movimento muito interessante de auto-limitação, ao dispensar a tecnologia e fotografar com lentes manuais, lentes fixas, câmeras compactas, ou até mesmo voltando a usar o filme. Não que esse seja o único caminho, mas mostra que existe também uma preocupação com a fotografia, e não com o como se faz, que inevitavelmente cai na supervalorização da máquina.
Numa sociedade que valoriza muito o consumo, deslumbra-se com a ostentação e é tão desigual como a nossa, identificar-se com o que se possui serve como uma luva. Caímos muito facilmente na armadilha publicitária de que somos o que consumimos e, para sermos mais e melhores, devemos consumir mais e melhor. Entretanto, para aqueles que gostam de fotografia (fotografia mesmo), a frase de Ralph Gibson diz tudo: "Hoje, basicamente ando pelo mundo só com uma câmera, uma lente 50 mm e muitos filmes. Acho que é só disso que precisamos."
A Zenit 12XP começou a dar alguns problemas. Aparentemente, o espelho não estava levantando em algumas fotos, ficando o quadro em branco. Fazendo algumas fotos pelo centro, o espelho não levantada mais. Eu e a Tati resolvemos levar na loja em que compramos, e chegando lá ela voltou a funcionar. "Aqui ela fica com medo", comentou o vendedor. Mesmo assim, preferimos trocar a Zenit por uma outra câmera que aceitasse objetivas M42 e estivesse menos propensa a problemas. Ele nos apresentou a clássica Pentax Spotmatic SPII e a Yashica TL Electro.
Acabamos ficando com a Yashica, que era 100 reais mais barata do que a Pentax. Lendo depois na web, descobri que a escolha deve ter sido boa, pois é quase um clone da Spotmatic: a única diferença seria o fotômetro, funcionando por leds, ao contrário da agulha usada na Pentax. Embora eu preferisse a agulha, um dos sites coloca que ela é frágil e eventualmente quebra.
De resto, o funcionamento é o mesmo da Zenit e da Spotmatic: faz-se o foco e em seguida aciona-se o fotômetro por uma chave lateral (na Zenit ele era acionado pressionando-se o obturador até a metade); os leds acenderão indicando a exposição alta, baixa ou a correta e o diafragma se fecha, podendo-se ao mesmo tempo em que é feita a fotometria, conferir a profundidade de campo. Tira-se a foto pressionando-se o disparador.
A Helios 44M-6 acabou ficando na loja junto com a Zenit. Embora fosse uma boa lente, preferi trazer a original Yashinon 50mm 1.9, pela distância focal. Os 58mm da Helios estavam se mostrando ligeiramente longos por ser a única lente da câmera (o que pode até ter sido um pouco exagerado pelo corte agressivo do visor da Zenit). Portanto, enquanto não compro uma grande angular, preferi ficar com a versatilidade dos 50mm. Assim que fizer testes com a lente coloco aqui; se for muito pior do que a Helios, é só voltar e fazer a troca.
Conversei um pouco com o dono da loja, que fica numa galeria na região da 7 de abril. Ele comentava da dificuldade em vender câmeras de filme. Mostrou uma Nikon F100, que precisaria passar com um conserto de 300 reais apenas para colocar uma molinha do auto foco, pois era necessária a abertura da câmera pela parte traseira. E completou: "essa câmera eu vendia por mais de R$ 4000 no ano passado. Hoje, por R$ 1500, não consigo vender". Sobre a migração de sistemas, disse: "os profissionais estão todos migrando para o digital. O pessoal só quer saber de D200." "E as médio-formato?", perguntei. "Os back digitais ainda são muito caros, e o pessoal de estúdio usa muito." Ele balançou a cabeça. "Também não. Tenho Mamiya por 1000, 800 reais. Não vende."
Profissionais geralmente querem câmeras que façam o serviço, e ultimamente o sistema digital faz o serviço muito bem. Parece que as câmeras de filme estão ficando apenas para aqueles que, como eu, fotografam por prazer, sem a necessidade de processamento e edição rápidos e que não sofrem o custo do filme e das revelações diretamente no rendimento do trabalho. A tendência é que os preços das câmeras analógicas permaneçam baixos, ou caiam mais ainda.
Mas há algumas distorções estranhas nesse mercado. As Nikon e Pentax são supervalorizadas, especialmente alguns modelos tidos como especiais. O caso da Spotmatic é um deles; outro é o das K1000 ou da Nikon FM2. Outros modelos clássicos como as Canon série A e Olympus OM também têm valores diferenciados. Na verdade, eles não custam caro, pela qualidade e pela durabilidade. Contudo, fica difícil justificar esses preços num segmento em que boas câmeras dificilmente são vendidas por mais de R$ 300.
P.S.: Havia uma fantástica Yashica Electro 35 à venda por míseros 70 reais. Isso porque a sua bateria custa por volta dos 50 reais, quando encontrada. Abaixo estão algumas fotos da Yashica TL Electro que substituiu a Zenit.

Texto produzido para a seção de colunistas do Digiforum. ====================================== Freqüentemente, vejo as pessoas perguntarem qual a melhor câmera, ou se
a melhor opção é uma compacta ou uma reflex, qual a melhor lente etc. É
importante que se tenha em mente que para dizer que uma coisa é melhor
é preciso que haja uma classificação subjetiva a partir de uma
referência. Essa subjetividade, que é individual, significa diferença
de opiniões: o que é melhor para um não é melhor para outro.
No processo de escolha de uma câmera, geralmente toma-se algumas
dessas referências (resolução, lentes, iso, preço, tamanho) e tenta-se
criar uma hierarquia de acordo com aquilo que é desejado. O que acho
que falta um pouco nessas discussões são reflexões sobre as diferentes
linguagens ligadas a cada tipo de equipamento. Quando se fala "se você
puder, compre uma DSLR", deixa-se de lado uma série de aspectos
importantes. Nenhum tipo de câmera é melhor em termos absolutos.
A idéia para esse texto surgiu com esse tópico postado pelo Ivan no Mundo Fotográfico,
somado a outras discussões que já tive sobre o tema por aqui e com
outros amigos. Quais as diferenças, em termos de linguagem, entre os
diferentes tipos de equipamento fotográfico? Para saber isso,
precisamos conhecer suas características técnicas, mas não nos
limitarmos a ela, e sim transportá-las para o universo da linguagem.
Falo ali apenas dos tipos de câmeras que já usei.
Compactas digitais
São câmeras pequenas, com sensores pequenos e lentes fixas. Embora
sejam um pesadelo para os fanáticos por tecnologia avançada, podem ser
muito bem aproveitadas na mão de fotógrafos criativos. O pequeno sensor
e, conseqüentemente, a curta distância focal das lentes produzem uma
enorme profundidade de campo mesmo quando não se usam aberturas tão
fechadas. Além disso, por não terem espelho, não tremem na hora da foto
e podem ser utilizadas em velocidades realmente baixas, como 1/8 ou 1/4
com as mãos bem firmes. A falta de isos altos é compensada pelo ganho
de profundidade sem necessidade de fechar o diafragma e pela
possibilidade de fotografar em velocidades menores de 1/30, impensável
numa reflex sem tripé.
Portanto, a linguagem da câmera compacta relaciona-se a fotos com
muitos elementos no foco, fotos de rua ou outras situações em que uma
câmera discreta é fundamental, facilidade em fotos macro, uso de baixas
velocidades sem borrões, entre outras coisas. Um exemplo de uso das
qualidades de uma compacta é a foto do Luiz Fonseca nesse duelo.
Reflex digitais
O que mais me chama a atenção nas reflex digitais é a combinação
híbrida entre um sensor de alta tecnologia com um modelo de câmera que
existe há quase um século. As reflex não mudaram em nada na sua maneira
de funcionamento, exceto pela substituição do filme pelo sensor. E, se
antes o corpo da câmera era o que menos importava, agora isso é
diferente, pois o sensor está "grudado" nele para sempre. Como
resultado desse modelo híbrido, temos a complicação do fator de corte
(exceto nas Canon topo de linha), muito bem explicado pelo Caetano em sua coluna.
Ou seja, para ter uma lente que funciona como "normal" numa DSLR,
precisamos de uma lente de cerca de 37mm, que não têm as mesmas
características das 50mm, mais baratas e geralmente mais claras. Com
isso, essas câmeras são um pesadelo para quem gosta de grande angular,
pois é necessário investir em lentes caríssimas para se obter com
qualidade o efeito do amplo ângulo de visão que antes se obtinha com
uma simples lente de 24 ou 28mm. Por outro lado, isso tudo é
contrabalanceado pelo ganho que se tem no uso das teleobjetivas, que
têm seu ângulo de cobertura diminuído, numa equivalência a
multiplicação da distância focal por 1,5x ou 1,6x. O sensor maior
permite o uso de isos mais altos (em parte para compensar a perda que
se tem com o espelho) e a profundidade de campo é menor, permitindo o
uso do desfoque com mais facilidade.
Por isso, as reflex digitais geralmente estão associadas a uma
linguagem com o uso de teleobjetivas ou meias-teles, com possibilidade
de uso criativo do desfoque. Ainda que maiores do que compactas, não
são tão grandes e têm certa mobilidade para se fotografar na rua. A
possibilidade de troca de lentes e a variedade de acessórios aumenta
sua flexibilidade, embora ter uma reflex que faz tudo consome rios de
dinheiro, especialmente em boas lentes GA. Com isso, o uso das lentes
do kit geralmente é interessante. Apesar de não serem tão claras, já
permitem o uso das vantagens do sistema reflex a um custo baixo. Um
exemplo é uma de minhas fotos feitas com a 300D + Kit.
Reflex de filme
Dentro dessa categoria, temos tanto as antigas reflex mecânicas como as
modernas eletrônicas com sistemas de medição e automatismos complexos,
que só se diferenciam das DSLR pelo sensor. Ao contrário das irmãs
digitais, as reflex de filme têm no corpo sua parte menos importante:
no momento em que a cortina abre, o que faz a foto é a lente e o filme.
O corpo só trará mais ou menos recursos. Portanto, uma das vantagens do
filme é poder escolher o "sensor" de acordo com os interesses. Pode-se
ter uma foto em PB verdadeiro, usar um cromo, um negativo vencido, e
por aí vai. Com isso a variação de possibilidades é grande. Além disso,
a maior parte das objetivas que existem hoje são feitas para o formato
35mm, ou seja, elas vão funcionar da forma "original". Isso traz
vantagens no uso de grande angular e a perda correspondente nas teles
no sistema digital.
As reflex de filme também são grandes, dificultando um pouco a
fotografia de rua. O espelho, além de barulhento, também provoca a
trepidação na câmera, impedindo o uso de velocidades baixas sem tripé.
O sensor de 35mm reduz a profundidade de campo, fazendo com que seja
possível ter apenas um olho focado num retrato feito com uma 50mm
clara. Permite um aproveitamento interessante em grande angular sem
necessidade de distância focal extremamente curta, como nessa foto feita com uma 24mm.
Rangefinders
São câmeras sem espelho e, por isso, usam um visor independente da
objetiva. As mais avançadas são equipadas com telêmetro e correção de
paralaxe, o que permite o ajuste do foco com precisão e evitam que o
que se veja no visor não corresponda ao que sai na foto. Além disso, os
modelos mais avançados também permitem a troca de objetivas. Se inserem
nessa categoria as clássicas Leicas série M. Pelo fato de não terem
espelho, as objetivas podem ocupar mais espaço dentro do corpo da
câmera, diminuindo seu tamanho.
As rangefinders são muito parecidas com as compactas em relação à
portabilidade, já que têm tamanhos parecidos. Também são bastante
silenciosas: o único som é o da cortina. Além disso, como o visor é
independente, as fotos podem ser tiradas sem que haja o corte provocado
pela subida do espelho, possibilitando manter contato ininterrupto com
o assunto. Sãos as câmeras para fotografia de rua "por excelência",
consagradas por mestres como Cartier-Bresson. Fotos com Leica M:
http://www.flickr.com/photos/spacelion/314384885/in/pool-36302872@N00/
http://www.flickr.com/photos/21618643@N00/312236889/in/pool-36302872@N00/
Médio Formato
Rolleiflex, Hasselblads estão entre essas. O médio formato inclui
uma série de proporções diferentes de negativos. As câmeras são mais
utilizadas em estúdios, já que os negativos (ou backs digitais) maiores
permitem ampliações maiores, ideais para uso em publicidade. São
câmeras de tamanho maior, a maioria das mais antigas não tem fotômetro
(no estúdio é mais comum o uso do fotômetro de mão) e podem ter uma ou
duas lentes (Single Lens Reflex ou Twin Lens Reflex).
Há dois aspectos relativos à linguagem que acho os mais
interessantes. O primeiro é que essas câmeras permitem a focalização
olhando-as de cima, ou seja, a câmera fica na altura da barriga. Isso
quebra um pouco a agressividade que se tem ao apontar uma reflex para
uma pessoa, "escondendo-se" atrás da máquina. Pode-se fotografar
enquanto a pessoa olha para o seu rosto, tornando o contato entre
fotógrafo e fotografado muito mais leal e confortável para este último.
Além disso, as fotos feitas em médio formato, na maioria dos casos, são
quadradas, o que muda totalmente a forma de compor e enquadrar. Alguns
exemplos:
http://www.flickr.com/photos/shaunroberts/313580777/in/pool-mediumformat/
http://www.flickr.com/photos/janeway/315789014/in/pool-mediumformat/
http://www.flickr.com/photos/je-ne-suis-plus-ici/309758419/in/pool-mediumformat/
Existe uma imensa variedade de equipamentos no mercado. Nem tudo é
DSLR. Cada um desses equipamentos tem suas características e seus
elementos de linguagem. Não há melhores ou piores câmeras em termos
absolutos. Há possibilidades diferentes. Antes de mudar de equipamento,
talvez seja interessante tentar "esgotar" as possibilidades daquilo que
se tem em mãos. E, com criatividade, é possível que um só equipamento
nunca se esgote.
Foto: Alfonso Romero
Este é um pequeno conto que redigi para a seção de colunas do Digiforum. ================================== Vicente gostava de escrever. Não era uma profissão nem exatamente uma grande paixão, mas já fazia parte de sua rotina sentar em frente a sua velha máquina de escrever — uma Olivetti mecânica, com a fita de tinta já gasta — e preencher duas ou três páginas de papel meio amarelado com um conto ou algumas poesias. Não sabia muito bem quando aquele hábito havia começado, nem muito bem porque se mantinha.
Terminadas as histórias, ele as guardava numa pasta de couro marrom, já meio embolorada, que já continha uma parte expressiva da sua imaginação. Personagens, lugares, acontecimentos solenes e corriqueiros, transportados para o papel, jaziam ali por anos, longe dos olhos alheios. Não costumava mostrar suas histórias para ninguém. Escrevia para si, por hábito, por prazer. Guardadas na pasta, as narrativas já cumpriam sua função.
Num dia de insônia, Vicente sentou-se mais uma vez frente às teclas duras e dali saiu uma história mais vibrante, mais intensa, cheia da sua visão pessoal do homem e do mundo. “Quiçá uma pequena obra prima”, pensou. Aquela história precisava ser vista.
Não era de muitos amigos. Tinha dois colegas, do escritório, com quem saía em alguns fins de tarde para uma gelada no boteco da esquina. Modernosos, ambos trabalhavam com a parte de informática da firma, enquanto Vicente, meio que parado no tempo, permanecia na sua função de contador da mesma forma como começara, quinze anos atrás. Avesso aos computadores, permitia ser auxiliado apenas pela sua calculadora, em cujos botões já nem se viam números, depois de tantos balanços checados. Sua acomodação tecnológica rendia algumas piadas aos colegas, mas nunca sua competência fora colocada em dúvida — na ponta do lápis, entregava planilhas com correção impecável.
Levou, então, suas páginas datilografadas, no dia seguinte, ao Luís e ao Sérgio, seus colegas. — Tenho aqui algumas linhas que escrevi na última noite... Gostaria da vossa opinião — disse ele, estendendo as folhas para ambos. — O que é isso? — respondeu Luís de pronto — você ainda usa máquina de escrever? — Meu caro Vicente — completou Sérgio — realmente não passa de uma peça de museu.
Envergonhado, Vicente alcançou as folhas de volta. Procurou algum computador disponível na empresa. Dorotéia, a secretária do chefe, havia ficado em casa, mais uma vez doente. Sentou-se em sua cadeira e, após tensas dezenas de minutos, conseguiu fazer com que a impressora cuspisse alvas folhas com a sua história. Levou de volta aos colegas.
— Mas Vicente, assim não é possível... — analisou um deles, com ar de piedade. — Veja, você nem soube fazer as margens direito. — E essa fonte? Ninguém usa uma fonte dessas — completou o outro. — A impressão está péssima, você deve ter usado o modo rascunho. — Se quiser uma boa impressão, compre uma impressora top de linha. Suas letras sairão sem nenhum serrilhado e você poderá ter textos em tamanho gigante. — E esse papel? Muito vagabundo, gramatura baixa. — Concordo. Para que sua história fique boa, imprima em glossy super luxo. Assim ela será muito mais valorizada. — Para fazer boas histórias, você precisa usar um monitor LCD de pelo menos 19 polegadas. — Isso mesmo. Só assim você conseguirá visualizar bem como seu texto vai ser impresso, pois os outros modelos enganam a vista. — E não esqueça do teclado ergonômico. É impossível escrever bem sem uma boa pegada no teclado. — Exatamente, é fundamental. Eu escolho um computador pela pegada do teclado. — Não esqueça de todo mês comprar a revista “Escreva Melhor”. Ela sempre traz análises dos melhores processadores de texto do mercado. — Assim você não terá dúvidas na hora de escolher. — Siga nossos conselhos, caro Vicente, e aí você vai conseguir escrever ótimas histórias, com certeza.
Embaraçado, Vicente mais uma vez pegou seu texto de volta. Uma parte dele se sentia inclinado a agradecer os colegas, por terem lhe ajudado tanto. Tinham dado a ele, espontaneamente, inúmeras dicas que certamente o ajudariam a escrever melhor. Uma outra parte, no entanto, sentia que havia algo errado, pois tivera a impressão de que nenhum dos dois sequer lera o que ele havia escrito.
Voltando à sua casa, contemplou sua estante de livros, com os clássicos da língua, como Camões, Pessoa, Rosa, Assis, Andrade, Cunha. Algo não fazia sentido. Como todos eles conseguiram produzir tamanhas obras sem os auxílios do mundo moderno? Abriu o antigo volume de “Os Sertões” e ao passar os olhos pelas palavras de Euclides, teve a certeza de que seus amigos estavam errados. Havia ali algo essencial que transcendia o método, passava muito ao largo dele. Voltou à sua máquina, e suas histórias saíam de lá direto para sua pasta de couro. Embora não humana, ela as aceitava e as compreendia. Era tudo de que ele precisava.
Foto: Patuska
Sempre leio que fotografar com filme acaba sendo desanimador por conta dos custos, que teoricamente não existiriam no digital. Embora os equipamentos digitais sejam mais caros, o filme requer gasto constante. Fiquei curioso e resolvi colocar na ponta do lápis essa diferença de custos. Vamos pensar na situação em que o fotógrafo é amador, ou seja, não fotografa em "escala industrial", situação em que claramente o digital leva vantagem.
Suponha que se resolva adquirir uma DSLR de entrada, como Nikon D50 ou Canon XT. Gastaria-se em torno de R$ 2300 no mercado "paralelo". Em contrapartida, podemos encontrar câmeras reflex analógicas de qualidade por 250 reais (Zenits, Pentaxes e Minoltas). Há aí uma diferença de 2050 reais. Quantas fotos com filme seria possível fazer com essa diferença?
Um rolo de Proimage: R$ 7 Revelação e impressão em 10x15: R$ 25 (média) Custo por foto: 25+7=32/36= R$ 0,89
Ou seja, com os 2050 reais de diferença no equipamento seria possível fotografar e imprimir 2303 fotos com filme. Isso significa que o filme só passaria a ser mais caro do que o digital a partir desse ponto, isso supondo que com o digital não se imprima nenhuma foto.
Agora, supondo que se tanto com o digital como com o filme se imprima o mesmo número de fotos, a diferença vai ficar apenas no custo do filme, uma vez que as impressões geralmente custam o mesmo a partir de negativo ou arquivo digital. Com isso, a diferença entre um sistema e outro seria de R$ 0,20 por foto (R$ 7/36). Com os R$ 2050 de diferença entre os equipamentos, o filme só passaria a ser mais caro a partir de 10250 fotos impressas.
Com isso, percebe-se que se a quantidade de fotos não é elevada, a fotografia com filme pode ainda ser uma opção de custo benefício interessante para quem não dispõe de dinheiro suficiente para comprar uma reflex digital ou que gosta de filme mas se assusta com os custos. Outro fator que poderia entrar nessa conta é a depreciação dos equipamentos, mas como há um abismo nesse sentido entre digital e filme, fica difícil comparar.
Foto: Weliton Slima
Hoje fui até a 7 de abril buscar uma Zenit que havia comprado para a Tati, que tinha vontade de experientar fotografar com uma reflex. Na semana passada, havia escolhido essa câmera, mas ela precisava de troca do prisma e acerto do controle de tempo de exposição. Hoje estava impecável. Junto, veio uma objetiva Helios 44M-6 de 58mm e f/2. Imagino que será bastante interessante ter uma câmera que usa objetivas de rosca M42, uma vez que há uma série de boas lentes a preço de banana para esse tipo de encaixe no ebay.

Podemos discutir uma série de aspectos técnicos e estéticos sobre fotografia, como composição, corte, enquadramento, cores etc. Mas há um elemento que sempre funciona como divisor de águas entre as grandes fotografias e o resto: o aproveitamento da luz.
Não é para menos, uma vez que a luz é a matéria prima da fotografia. Contudo, não se trata apenas de saber se há luz suficiente ou não, que é o determinado pela fotometria, ou na manipulação de uma lâmpada de estúdio. O segredo está na leitura dos padrões de luminosidade da cena, especialmente no jogo de luz e sombras, na temperatura e na maneira como a luz delineia formas e texturas.
Para ilustrar a importância desse aspecto, selecionei três fotos de Bill Brandt, tido como fotógrafo inglês mais influente e admirado do século 20.
http://www.michaelkenna.net/html/books/1976-86/images/bbsnikit.jpg
Essa primeira imagem mostra como a combinação de áreas iluminadas e totalmente escuras compõem a foto, muito mais do que a simples forma dos objetos. Ele intencionalmente escureceu o muro para que contrastasse com a casa e o piso e assim tivesse importância na composição. Ou seja, ele foi aqui muito além do que poderíamos pensar como "fotometria correta".
http://nasiriphotos.com/blogimg/full3%20bill%20brandt.jpg
Essa segunda foto é genial, pois, com a ajuda do padrão criado pela luz dura, transformou os dedos em pedras, quase abdicando do objeto e retendo-se simplesmente na forma.
http://www.artlimited.net/picbase/forum/3001/942.jpg
Esta é a minha preferida, pois vai contra o que é "correto" em iluminação artificial ao destruir a textura da pele e desaparecer com metade do corpo da modelo. Restam apenas algumas partes, fantasmagóricas e soltas, sem conexão, quase como se fosse uma fotografia cubista, se isso fosse possível. A luz é utilizada aqui da forma mais subversiva possível, pois define a foto de uma maneira incômoda e pouco convencional.
Outro nu do mesmo fotógrafo que seguem a mesma linha:
http://modernsculpture.com/bill%20brandt.jpg
É importante perceber que essas fotos também receberam tratamento especial na revelação e ampliação para atingir esse alto contraste.
As fotografias de Brandt são um ótimo exemplo de como usar a técnica de uma maneira não convencional a fim de obter um resultado específico. Para ele, a técnica é apenas um acessório para se conseguir um determinado fim; ela não dita as regras.
Fontes: http://www.billbrandt.com/ http://en.wikipedia.org/wiki/Bill_Brandt
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